Relatos de Viagens Astrais - Os Monges

(Extraído do livro: Ensaios Extracorpóreos / Capítulo 4 / Pag. 22-26 / Luiz Araújo)

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Uma das vantagens da projeção consciente é que ela nos faz perder o medo da morte, no momento em que descobrimos que o corpo de carne é apenas um veículo de expressão da consciência que é nossa realidade maior. Essa descoberta só tem valor quando o próprio indivíduo, lucidamente, constata estar fora do soma (corpo físico) atuando com todo seu raciocínio e personalidade únicos. Fora desse aspecto tudo é crença e, portanto, não confiável.

Um dos experimentos que levam à descoincidência vígil e que tem logrado êxito a muitos pesquisadores é o da concentraçao na vela acesa. Esse trabalho consiste em se fixar a atenção na chama de uma vela. O experimentador não deve se permitir divagações ou distração do pensamento, ao contrário, deve se esquecer até da própria existência, enquanto o olhar estiver concentrado no fogo emitido pela vela.

O propósito desse experimento é puramente científico, não tendo qualquer conotação ritualística, mística ou religiosa. Como sabemos, o nosso cérebro não para de raciocinar um instante sequer. Logo, quando o forçamos a tal exercício, a tendência é de que a consciência escape do veículo físico, de acordo com o instinto natural de sobrevivência. Se assim o desejar, pode o estudante usar um ponto fixo qualquer, em substituição à vela.

Às vinte e três horas do dia onze de abril, comecei a fazer o trabalho de mobilização básica de energias. A seguir, procedi ao já descrito experimento de concentração na vela acesa. O experimento teve longa duração, estendendo-se até a vela ser toda consumida. Nessa oportunidade, senti por várias vezes que atingira o estado vibracional, e que, em certos instantes, o ambiente escurecia, ficando só eu e a vela. Era cerca de meia-noite e trinta minutos quando fui dormir.

Mais tarde, despertei em estado cataléptico, com o parabraço (braço do corpo psicossomático) direito erguido, descoincidente do braço do soma. Mentalmente, solicitei ajuda extrafísica e, em seguida, exteriorizei as energias, visando facilitar a descoincidência. Na terceira tentativa, eis que consegui sair naturalmente do soma. Após a saída, voltei-me e pude ver meu corpo físico deitado na cama, ao lado de minha mulher. Essa visão é, no mínimo, sublime!

Saí imediatamente das proximidades para evitar a atração do "cordão de prata" (laço semimaterial que liga o psicossoma ao soma). A sensação era de intensa euforia. Ao aproximar-me da porta, a qual encontrava-se fechada, lancei os parabraços sobre a mesma, objetivando observar se haveria algum impacto, e como não ocorreu qualquer resistência, passei as demais partes do psicossoma. A passagem por obstáculos materiais é incrivelmente extraordinária.

Chegando do lado de fora do apartamento, outro fato curioso aconteceu. Senti-me como se estivesse no fundo de uma piscina; meus movimentos eram lentos, estranhamente pesados e senti a necessidade de respirar. Temi que em respirando, pudesse ser atraído de volta para o soma. Mesmo assim, decidi correr o risco, tomando uma leve inspiração; senti o tórax inflar como um fole, mas não houve o retomo ao soma. Fiquei mais tranqüilo, passando a respirar o mínimo possível (hoje compreendo que o psicossoma não precisa respirar).

Apesar de não me deter em olhar os objetos detalhadamente, tudo acontecia com muita clareza, uma vez que pude perceber as roupas que usava (as mesmas com que fora dormir) e que era noite, pois lá fora os prédios achavam-se com as luzes acesas.

Nessa noite, meu objetivo (alvo mental) era visitar minha família no bairro de Candeias, o qual fica a cerca de dez quilômetros de onde eu me encontrava. Assim, preparei-me para volitar a partir do patamar do edifício, porém tive receio de saltar daquela altura. Voltei-me, locomovi-me pelo corredor do prédio, quando lembrei que meu corpo físico repousava no leito e que, por isso, não havia motivo para temer. Tomei coragem e lancei-me da varanda do décimo andar. Fiquei como um balão em pleno espaço. Que sensação maravilhosa!

Sem entender o motivo do desvio de rota, mas, ainda volitando, deparei-me com o apartamento de cobertura de um edifício, cujo barulho do chuveiro atraiu minha atenção. Olhei pelo combogó (Regionalismo que denomina um tipo de parede construída com tijolos vazados) para ver se avistava alguma pessoa. Fui percebido por uma consciência que veio para o "hall" do edifício. Perplexo, identifiquei um antigo colega de trabalho. Este, muito assustado, também reconheceu-me, e avizinhou-se de onde eu volitava.

Se já era difícil admitir que ele pudesse ver-me, já que eu deveria estar invisível aos seus olhos, imagine quando ele começou a dirigir-me algumas palavras! Talvez ele fosse clarividente, pensei naquele instante. Hoje sei que, na verdade, ele também estava fora de seu corpo, porém, inconsciente. Ao ver-me pairando em pleno ar, julgou que eu houvesse morrido recentemente, passando a fazer perguntas, tais como: "Quando aconteceu? Como foi?" Além de ouvir sua voz, também captava seus pensamentos.

Por temer que a fala pudesse me fazer retornar ao soma, tentei, através de mímicas, dizer-lhe que eu não morrera, mas sim, estava projetado e que meu corpo físico repousava próximo dali. Todavia, ele insistia em me consolar, supondo-me defunto. Nessa aflitiva situação, eis que uma palavra escapou-me da boca sem que, por isso, houvesse retorno ao veículo carnal. Então, expliquei-lhe com palavras, tudo o que tinha, por gestos, demonstrado.

Ansioso por atingir meu objetivo, despedi-me do amigo, não sem antes perguntar-lhe em que bairro nos encontrávamos e o número daquele apartamento. Ele não soube responder. Outro detalhe que me chamou a atenção foi a cor de seus olhos, os quais refletiam um brilho do mais puro azul. A esse respeito posso ratificar que a nossa paravisão possui capacidade de captar as cores com muito mais nitidez que a visão dos olhos do soma.

Prevendo a curta autonomia de vôo, tratei de retornar à minha rota, porém, esse prazo se expirara e ao respirar um pouco mais forte, interiorizei-me no corpo denso que me recebeu em estado cataléptico.

Duas consciências extrafísicas cercavam-me o leito. Não me faziam mal algum, entretanto perturbavam-me o acoplamento ao soma, haja vista a paralisia momentânea que me dominava. Usavam vestimentas semelhantes a de monges e os capuzes que cobriam suas cabeças, de tão longos, deixavam uma sombra escura em seus rostos, não permitindo descrever qualquer detalhe. Não tinham estaturas elevadas, porém um se destacava do outro. O mais alto deles parecia comandar a tarefa que realizavam. Este último, apontando para minha pessoa, disse sarcasticamente: "Eis mais um viajante".

Por não estar, ainda, totalmente encaixado no corpo biológico e pensando que as entidades eram imagens constituídas pela mente (morfopensenes ou formas-pensamento) exteriorizei energias com o intuito de fazê-los sumir. Não obtive sucesso. Tentei acordar minha mulher que dormia ao lado, puxando-a pelo braço; seu psicossoma foi erguido, porém, dormindo. Larguei-a. Exteriorizei mais energias e solicitei amparo extrafísico. Só então aquelas consciexes sumiram.

Após a recoincidência do corpo psicossomático ao veículo físico, por breves instantes, voltei a dormir e sonhar, porém consciente de que sonhava, despertei para poder fazer este relato. Eram duas e quinze da madrugada.

Gostaria de registrar ainda, que em virtude de certas tarefas realizadas por exigência de minha profissão, adquiri, ao longo do tempo, um zumbido fino e constante que, embora não prejudique o aparelho auditivo, perturba-me sobremodo os tímpanos. Não obstante tal sintoma, durante as projeções que me foram patrocinadas, nada escutei de anormal em meus para-ouvidos, provando, com isso, que certas patologias do soma não se refletem no psicossoma.

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